Ainda sou do tempo: Paulo Neto
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

... do programa Global Guts

quinta-feira, setembro 28, 2017 0
... do programa Global Guts

Voltamos a um Memórias dos Outros, desta feita Paulo Neto traz-nos as suas lembranças de um programa que passou na SIC, uma mistura de Jogos sem Fronteiras e Gladiadores Americanos, chamado Global Guts. Vamos então ao seu texto.

Gosto muito quando de repente abre-se uma porta na minha memória e lembro-me de algo de que há muito eu me tinha esquecido. Foi o que aconteceu durante os últimos Jogos Olímpicos que lembrei-me, vá-se lá saber como, de um programa dos anos 90 que era um misto de "Jogos Sem Fronteiras" e "Gladiadores Americanos" em que participavam miúdos de diversos países, incluindo Portugal.
Após alguma pesquisa, descobri que o tal programa era "Global GUTS" e tratava-se de uma spin-off internacional de "Nickelodeon GUTS", que como o nome indica era produzido pelo famoso canal infantil americano. O programa começou em 1992 apenas com concorrentes americanos, sendo que dois deles tornar-se-iam famosos: A.J. McLean que faria parte dos Backstreet Boys e Mike Vogel que tornar-se-ia actor, entrando em filmes como "O Massacre do Texas", "Quatro Amigas e um Par de Calças" e "Blue Valentine". A apresentação estava a cargo de Mike O'Malley(hoje mais conhecido pelo seu papel como o pai de Kurt em "Glee") e da britânica Moira Quirk, que também desempenhava a função de arbitragem.
Após a participação de alguns concorrentes britânicos na terceira temporada de "Nickelodeon GUTS", a quarta temporada foi uma versão internacional onde participaram concorrentes de onze países. Para além de Portugal e Estados Unidos, os outros países eram AlemanhaEspanhaIsraelMéxicoReino UnidoRússiaUcrâniaGeórgia e Cazaquistão, sendo que os concorrentes destes quatro últimos países jogavam no âmbito de uma equipa da Comunidade de Estados Independentes, nome pelo qual era designado o conjunto dos países da União Soviética nos anos seguintes à dissolução da mesma. Todos os episódios de "Global GUTS" (32 no total) foram gravados entre 12 de Julho e 25 de Agosto de 1995 nos Universal Studios em Orlando, na Flórida e exibidos nos meses seguintes em cada um dos países intervenientes.



No caso de Portugal, os 12 programas com a participação de concorrentes portugueses foram exibidos na SIC no "Buéréré", creio que aos sábados de manhã, no âmbito de uma parceria que então a SIC tinha com a Nickelodeon para a sua programação infantil, com o sub-título "Mostra O Que Vales". José Figueiras foi o apresentador português que fez a cobertura do programa, assegurando os comentários em português e as entrevistas aos concorrentes nacionais.  Em cada programa, havia três concorrentes, de países diferentes e de ambos os sexos (dois rapazes e uma rapariga ou duas raparigas e um rapaz), vestidos de azul, vermelho e roxo. Em cada programa disputavam-se cinco jogos. Os quatro primeiros iam variando a cada programa e tratava-se de variações de desportos existentes. Por exemplo, rematar bolas que caíam dentro de um tubo para dentro de uma baliza, defender uma baliza de bolas que iam sendo disparadas por canhões, fazer salto em altura ou encestar bolas de basquetebol com ajuda de uma corda de bungee-jumping, percorrer uma piscina de ondas num barco de borracha ou em cima de uma prancha, ou fazer uma corrida cheia de obstáculos à volta da pista. No fim de cada jogo, o primeiro classificado ganhava 300 pontos, o segundo 200 e o terceiro 100.

O quinto e último jogo era o mesmo em  todos os programas, o Super Aggro Crag (em português a Super Montanha) em que cada um dos três concorrentes tinha um percurso diferente mas idêntico para subir de mais 9 metros de altura e pelo caminho não só tinham que acender várias luzes (tendo que voltar atrás caso deixassem alguma por acender) e passar por vários obstáculos pelo caminho como fumos, tremores e avalanches de bolas. O vencedor deste jogo ganhava 725, o segundo 550 e o terceiro 375. 

E porque é que ao ver os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, eu lembrei-me do "Global GUTS"? Porque no final de cada programa, havia uma cerimónia de entrega de medalhas ao estilo dos Jogos Olímpicos, onde o terceiro classificado recebia uma medalha de bronze, o segundo uma medalha de prata e o primeiro uma medalha de ouro e um troféu, enquanto o hino nacional do país do vencedor era tocado. Por fim os três concorrentes davam uma volta à pista com as bandeiras dos seus países.Pelo que pude apurar, os doze concorrentes portugueses foram seleccionados através do Corpo Nacional de Escutas, sendo todos eles pertencentes a grupos de escuteiros da região de Lisboa.



Eis os nomes dos doze concorrentes portugueses, os seus nicknames no programa e os seus respectivos adversários:
Ana Cristina Figueiredo "Winner" (Angel - Espanha, Alexey - Rússia)
Ana Gouveia "Nika" (Ambar - México, Roy - Israel)
Ana Martins "Magic" (Adam - Reino Unido, Mayalen - México)
Ângela Almeida "Eagle" (Iris - Alemanha, Jeremy - Estados Unidos)
Bruno Mendes "Bruiser"(Julia - Espanha, Mario - Mexico)
Filipe Miranda "Boulder" (Alba - México, Matt - Estados Unidos)
Hugo Amaral "Amazing" (Ana - Israel, Julia - Alemanha)
Magda Cruz "Missile"  (Holger - Alemanha, Sandra - Espanha)
Nuno Correia "Wasp" (Michal - Israel, Melanie - Reino Unido)
Pedro Silva "Panther" (Carmen - Espanha, Paul - Estados Unidos)
Ricardo Miranda "Elastic Man" (Irina - Rússia, Rachael - Reino Unido)
Rita Almada Guerra "Warrior" (Arnold - Ucrânia, Marcia - EUA)

Apenas um concorrente português, Filipe Miranda, conseguiu ganhar uma medalha de ouro, superiorizando-se a uma mexicana e um americano. Portugal ganhou também cinco medalhas de prata e seis de bronze. Os Estados Unidos foram o país com mais medalhas de ouro (8), seguindo-se México (7), Reino Unido (6), Alemanha e Israel (4) e Espanha (2). Nenhum concorrente dos países da Comunidade de Estados Independentes ganhou uma medalha de ouro. Dois concorrente israelitas conseguiram ganhar os cinco jogos do seu respectivo programa e alcançar a pontuação máxima de 1925 pontos.

Em 2008, houve uma spin-off do programa nos Estados Unidos intitulada "My Family's Got GUTS".
Pelo que pude rever através de vídeos no YouTube e no Dailymotion, tratava-se de um programa bem interessante, que promovia a actividade desportiva de forma divertida e que podia ser recuperado nos dias de hoje.



Paulo Neto é conhecido pelas suas colaborações com outros blogs, e pelo livro que escreveu, de tempos em tempos colabora com este blog, e hoje foi mais uma das suas lembranças.






quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

... do filme Streets of Fire - Estrada de Fogo

quarta-feira, janeiro 25, 2017 0
... do filme Streets of Fire - Estrada de Fogo

Voltamos a mais um Memórias dos Outros, com o escritor Paulo Neto a trazer-nos a sua recordação sobre a Fábula de Rock&Roll do cinema dos anos 80, o filme Streets of Fire, conhecido por cá também como Estrada de Fogo.

Nos anos 80, houve certos filmes que precisaram de conhecer o fracasso na altura e deixar o tempo passar para se tornarem uma paradigmática cápsula do tempo dos anos 80 e assim serem. elevado a filme de culto. É o caso deste filme que precisou de outro tempo e de outro lugar para ser apreciado.


Falo de "Estrada de Fogo" ("Streets of Fire", no original), também de 1984, realizado por Walter Hill ("48 Horas", "Os Selvagens da Noite"), que transpôs a sua habitual temática da lei das ruas para esta invulgar mescla de filme de acção com musical, definido como uma fábula rock & roll. O mítico Jim Steinman, famoso pelos suas épicas composições musicais interpretadas por Meat Loaf e Bonnie Tyler, contribuiu prolificamente para a parte musical do projecto, nomeadamente com a canção que viria a eternizar o filme.


Logo ao início as legendas que dizem "Another place, another time" avisam que estamos perante um universo paralelo onde o passado (anos 50) e o presente de então (anos 80) se misturam. Um concerto  da estrela rock Ellen Aim (Diane Lane) e da sua banda Ellen Aim & The Attackers na sua cidade natal é interrompido pelo gang The Bombers e o seu líder Raven Shaddock (Willem DeFoe) que rapta selvaticamente Ellen em pleno palco. A única esperança para salvar Ellen está numa sua antiga paixão Tom Cody (Michael Paré), que se tornou um duro e rude soldado de fortuna. Contactado pela sua irmã Reva (Deborah van Walkenburg), Tom Cody aceita a missão, acompanhado de McCoy (Amy Madigan), uma aguerrida ex-soldado e Billy Fish (Rick Moranis), o agente de Ellen. Antipatizando com Cody e apenas tolerando-o por não ter outra saída, Billy lembra-lhe constantemente que é ele quem paga a missão e quem namora actualmente com Ellen.



Cody e McCoy conseguem introduzir-se no antro dos Bombers e salvar Ellen. Raven descobre-os já em fuga e segue em seu encalço. Durante a alucinante fuga, Cody, Ellen, Billy e McCoy acabam por arrastar com eles também uma fã de Ellen (Elizabeth Daily) e The Sorels, um grupo de doo-wop que viaja num autocarro. Quando chegam à cidade, Ellen desilude-se quando Billy afirma que Cody só concordou em salvá-la por dinheiro. Mas quando este aceita apenas a parte prometida a McCoy, Ellen e Cody retomam brevemente o romance. Só que o iminente confronto com Raven vai mudar de novo o destino de ambos...

Promovido como um dos blockbusters no Verão de 1984, "Estrada de Fogo" acabou por ser um fracasso de bilheteira e foi achincalhado na crítica. E de facto, contém várias pontas soltas que impedem de ser o grande filme que poderia ser. O principal problema estará porventura no protagonista, pois Michael Paré revela ter o carisma de uma ostra, demasiado caricatural nas cenas de acção e pouco convincente na parte romântica. Diane Lane é bela e sensual, mas nota-se que ainda estava um bocadinho verde para este seu primeiro grande papel. Willem DeFoe, apesar da sua habitual competência, também não consegue escapar à caricatura. Salvam-se sobretudo Amy Madigan, segura e convicente no seu papel de maria-rapaz (inicialmente escrito como uma personagem masculina) e Rick Moranis, que interpreta aqui uma variante interessante do sua eterna personagem de nerd que faz em todos os seus filmes, a do nerd fanfarrão e cheio de garganta, mas pouco traquejo. De assinalar também um cameo de Marine Jahan, que fez as partes de dança da protagonista de "Flashdance", como a stripper do antro dos Bombers. Também não percebo a personagem da groupie (Elizabeth Daily), a quem o grupo aceita que ela os acompanhe para que ela não denuncie Ellen e para eles não perderem tempo. Tirando esse primeiro momento, ela passa o resto do filme como um emplastro irrelevante.

Além da partitura musical de Ry Cooder, a banda sonora contava, além do já referido Jim Steinman, com composições de Stevie Nicks e Tom Petty, bem como canções de The Blasters, The Fixx, Marilyn Martin e Dan Hartman, que cantou "I Can Dream About You", o tema mais bem-sucedido do filme na altura (n.º 6 do top americano).
Porém seria eventualmente "Nowhere Fast", a canção que abre o filme, que daria a "Estrada de Fogo" o seu lugar na memória colectiva, especialmente em Portugal. Lembro-me que vi a primeira parte do filme quando passou na RTP no início dos anos 90 na mítica "Lotação Esgotada" de quarta-feira e de ter ficado impressionado com a canção. E eu não fui o único pois foi a partir daí que "Nowhere Fast" passou a ser amplamente tocada nas discotecas e na rádio, e a ser usada em programas de televisão (lembro-me de a ouvir por exemplo, no "Ai, Os Homens" durante uma prova de artes marciais de um concorrente).



"Nowhere fast" é interpretada pelos Fire Inc., que não eram mais que os habituais músicos de Jim Steinman, e a voz de quem Lane fazia playback no filme é a de Laurie Sargent. Um épico trepidante que tornou-se essencial em várias noites retro das discotecas em Portugal e não só. Também recomendo a audição do outro tema dos Fire Inc., o não menos épico "Tonight Is What It Means To Be Young"  que fecha o filme e que chegou a ser utilizado como uma das taglines.


A popularidade da banda sonora acabou por renovar o interesse em "Estrada de Fogo" e elevá-lo ao estatuto de culto. O passar dos anos acabou por ser gentil para o filme, que agora vê-se bem por não ser levado tanto a sério como na altura.  Vê-se como uma fantasia surreal  ao estilo videoclip, ou não houvesse uma parte em que parece que o filme pára para dar lugar a um videoclip de Diane Lane a fazer playback de uma das canções do filme. Ou então, como afirmou Nuno Markl, como uma banda desenhada com gente de carne e osso. Seja como for, quando descobri o DVD em promoção na FNAC, decidi comprá-lo e apesar de todas as falhas e incipiências, vê-se com agrado e com um toque de nostalgia eighties

"Estrada de Fogo" esteve inicialmente pensado para ser o primeiro tomo de uma trilogia de Tom Cody, mas o insucesso comercial inviabilizou a continuação do projecto. Porém, em 2008, houve uma sequela não oficial e que passou completamente despercebida fora do circuito independente, "Road to Hell" com Michael Paré e Deborah van Valkenburg a retomarem os seus papéis.








Mais um texto de Paulo Neto, ao qual agradeço pelo tempo dispensado.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

... do logotipo humano do Euro 2004

sexta-feira, junho 10, 2016 0
... do logotipo humano do Euro 2004

Hoje voltamos a um Memórias dos outros, para acompanhar a experiência de Paulo Neto neste evento que mobilizou o país. O Euro 2004 encheu-nos de orgulho nacional e todos envolvidos souberam capitalizar este momento.


Dá para acreditar que está quase a começar o terceiro Europeu de futebol depois do Euro 2004? Ainda tenho bem presente toda a enorme antecipação vivida em Portugal nos anos anteriores ao início do "nosso" Euro (apenas comparável à da inauguração da Expo 98 e da passagem do milénio em tempos mais recentes) bem como o ambiente de euforia vivido ao longo do torneio. Claro que a festa acabou em tragédia grega e que depois vieram as passas do Algarve (e de Leiria, de Aveiro e tudo o mais), mas isso são outros quinhentos.

Em 1998, em plena Expo-euforia e vivendo um período de rara prosperidade onde era fácil de acreditar que estava a poucos passos de entrar no "clube dos ricos" e que o dinheiro surgia por geração espontânea, sem pensar se haveria alguma pesada factura a pagar algures no futuro, Portugal virava-se para a sua próxima oportunidade de afirmação internacional. E foi então que se decidiu apostar numa candidatura ao Campeonato Europeu de Futebol de 2004. Inicialmente até se tinha pensado numa candidatura conjunta com Espanha, mas com os nuestros hermanos a preferirem uma candidatura isolada, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu avançar também com a sua própria candidatura. Além das duas candidaturas ibéricas, havia também uma candidatura conjunta de Áustria e Hungria. Mas cedo se percebeu que a verdadeira disputa iria ser ibérica, quase como uma batalha de Aljubarrota ou de um David luso contra um Golias espanhol.


A candidatura de Portugal, - cujas principais figuras eram Gilberto Madaíl, o então presidente da FPF, Miranda Calha, o então Secretário de Estado do Desporto, José Sócrates (pois...), então Ministro Adjunto detendo a tutela do desporto e Carlos Cruz (pois...) - não se poupou a esforços, conseguindo por exemplo o apoio de figuras do futebol como Ronaldo, Pelé e Zidane. Mas aquele que foi tido um dos maiores trunfo da candidatura portuguesa foi o anúncio publicitário que foi filmado no dia 24 de Julho de 1999 no Estádio Nacional no Jamor, onde foi formado um enorme logótipo humano formado por mais de 34 mil pessoas de todo o país. E eu fui uma delas.Infelizmente não tenho fotografias desse dia, pelo que tudo o que tenho são as memórias a serem escritas neste texto.




No Verão de 1999, eu tinha dezanove anos e estava nas férias após o meu primeiro ano universitário. Já sabia da iniciativa do logótipo humano através da comunicação social e estava interessado em participar. Soube que em Torres Novas, as inscrições eram na antiga biblioteca municipal e fui lá inscrever-me. Passados dias recebi a acreditação para entrar no estádio com alguns vales para trocar por produtos dos patrocinadores do evento (por exemplo gelados Olá, pastilhas Max Air, latas de Coca-Cola) e a informação com os horários da viagem. Também vinha um texto, "O Diário do Tiago", com um relato ficcionado do que aconteceria nesse dia. Vinha ainda indicado que eu ficaria na fila 7 do logótipo, ou seja, seria dos que ficaria mais à esquerda.


Nesse sábado, éramos cerca de cinquenta em Torres Novas para irmos até ao Jamor. Fomos de camioneta até ao Entroncamento para apanharmos o comboio até à Gare do Oriente, apanhando aí um dos autocarros da Carris disponibilizados para o efeito até ao Jamor. Dos torrejanos que foram comigo, eu só conhecia uma rapariga chamada Virgínia, que conhecia do secundário e por isso, fiquei junto ao grupo dela durante quase todo o dia.


Ao longo da tarde, enquanto todos os participantes se juntavam nas bancadas do Estádio Nacional antes de serem chamados ao relvado para formar ao logótipo, várias bandas nacionais actuaram num palco montado para o efeito. Recordo-me de que, quando estava a entrar no Estádio (onde por acaso nunca tinha estado antes), os Entre Aspas estavam em palco a cantar o seu hit da altura, "Esqueci o Nome das Coisas". Sei que estavam muitas das bandas nacionais mais populares da altura (por exemplo no anúncio televisivo do evento que está no YouTube, mencionam por exemplo André SardetBlack Company e os D'Arrasar), mas além dos Entre Aspas, só me recordo dos Pólo Norte, dos Hands On Approach que actuaram já depois do logótipo ter sido formado, e dos Excesso que durante a sua actuação o Estádio inteiro rompeu numa berraria, metade (maioritariamente feminina) a gritar de júbilo, metade (maioritariamente masculina) a vaiar e a gritar mimos que me abstenho de reproduzir.



Apesar de ocasionalmente eu prestasse atenção às actuações musicais, esse período dentro do estádio estava a ser um bocado secante. Como se sabe, as bancadas do Estádio Nacional não são nada confortáveis, além de que o recinto oferecia pouco abrigo ao enorme calor daquela tarde. E ainda bem que vim bem servido de sandes e bebidas, pois se fosse só a contar com aquilo que podia ir trocar no estádio com os vales da acreditação, tinha passado fome. Por exemplo, eu pensava que a Olá tinha disponibilizado vários tipos de gelado, mas afinal o único que estavam a dar era o Magnum de menta.


Até que chegou a hora de ir para o relvado formar o logótipo, que como se sabe tinha o desenho de um jogador. Consoante a sua posição, cada um recebia uma espécie de poncho com capuz, do mesmo material de uma T-shirt, de cor branca, preta, vermelha ou verde que tinham à frente impresso uma miniatura do logótipo. Eu fiquei com um branco. No entanto, primeiro que tudo ficasse composto foi mais uma seca. Pelo ecrã gigante, via-se que havia alguns buracos por preencher, bem como uma mão cheia de gente que continuava nas bancadas recusando-se a descer ao relvado (afinal tinham ido lá para quê?). Os membros da organização convenceram quem estava no  relvado a vaiar essas pessoas. 
O calor continuava tão abrasador que os bombeiros lançavam mangueiras de água sobre nós.



Finalmente, com alguns membros da organização e voluntários (e até Eusébio e o primeiro-ministro António Guterres) também a juntarem-se à moldura humana, o logótipo lá se compôs, ainda meio manhoso, mas nada que não se corrigisse em pós-produção. E o grande momento chegou: Ana Matias, a conhecida expert de marketing desportivo, lançou a deixa para que todos gritassem a uma só voz: "Portugal, we love football!". Após três gritos em uníssono, uns ginastas estrategicamente colocados por entre a multidão executaram a manobra previamente ensaiada de fazer mover a perna do jogador, tipo desenho animado, para fazer chutar na bola. E aí, a bola gigante colocada no canto inferior esquerdo do relvado abriu-se, soltando muitos balões vermelhos e verdes. Por fim, tocou o hino nacional que todos cantámos a uma só voz e esse foi para mim o momento mais emotivo. Para terminar, o célebre rocketman da cerimónia dos Jogos Olímpicos de 1984 sobrevoou o campo. 



Quando por fim houve ordem para dispersar, resolvi ficar no relvado para assistir à actuação dos Hands On Approach, que na altura faziam sucesso com os seus hits "My Wonder Moon" e "Silent Speech". Ao som deste último, vi-me a fazer parte de um comboio humano que se movimentou ao longo do relvado. A alegria de ter feito parte daquele acontecimento era geral. Como ao sair do estádio, perdi-me da Virgínia e dos outros, acabei por entrar no primeiro autocarro da Carris que encontrei de volta à Gare do Oriente. E vi-me no meio de um grupo de malta do Norte que passou todo o percurso em cânticos de louvor ao FCP e a Pinto de Costa e de, digamos, escárnio a Lisboa e ao Benfica e eu só pensava que estaria em apuros se algo em mim revelasse o meu benfiquismo. Até preparei mentalmente para dizer que era da Académica de Coimbra, caso algum deles me questionasse. Felizmente que nenhum deles reparou em mim. 


A viagem de volta à casa foi feita nas calmas, com muitos de nós, incluindo eu, ainda a ostentar o respectivo poncho que usado na formação do logótipo. (Sei que a minha mãe guardou-o não sei onde e que eu planeava usá-la para assistir a um dos jogos do Euro, mas não só não vi nenhum jogo do Euro 2004 ao vivo como nunca mais soube do poncho). Só no dia seguinte, com os media em peso a falarem sobre o assunto, é que reparei na verdadeira dimensão daquilo tudo. Segundo dados oficiais, 34 309 pessoas estiveram no relvado a formar o logótipo, que bateu dois recordes do Guinness: o maior logótipo humano em termos de dimensão e número de participantes e o anúncio publicitário com maior número de figurantes, batendo o célebre anúncio da British Airways.             


Com a candidatura austro-húngara a braços com problemas, sobretudo devido a uma crise na federação de futebol magiar (a Áustria viria a ter bem mais sucesso ao aliar-se a outro vizinho, a Suíça, para organizarem o Euro 2008), e a candidatura espanhola em interregno de campanha, quiçá a cheirar umas hipotéticas favas contadas da vitória, a iniciativa acabou por ter grande impacto, não só em Portugal mas além-fronteiras. Ali estava a prova de que os portugueses, com mais ou menos desenrascanço, com mais ou menos desorganização, eram capazes de muita coisa, havendo vontade e paixão. Será que este remate colectivo iria dar em golo, que é como diz, em Euro 2004?




A resposta soube-se no dia 12 de Outubro de 1999, na cidade alemã de Aachen. A expectativa estava no ar e o apuramento da selecção nacional para o Euro 2000 nesse fim de semana anterior parecia ser um bom presságio. Eu estava na Faculdade numa fila para tratar das minhas inscrições nas cadeiras do 2.º ano do curso, quando alguém que estava ao telemóvel revelou o veredicto que momentos antes se tinha ouvido da boca do então presidente da UEFA, o sueco Lennart Johansson: Portugal iria receber o Euro 2004! E eu não deixei de sentir um pouco de orgulho ao pensar que dei o meu contributo.


O que aconteceu depois é uma outra história. Outra história também será aquela em que, segundo agora conta Carlos Cruz, tal conquista também se fez através de manobras menos lícitas. Mas para sempre ficam as memórias de um verão de 1999, que foi particularmente marcante para mim pelos seus vários altos e baixos, e de vários "firsts" da minha vida. Que também são as memórias do tempo de um Portugal cheio de auto-estima e que não tinha medo em sonhar alto, um tempo que, como escreve Pedro Marques Silveira neste excelente artigo do site ZeroZero, agora não só parece distante como quase irreal.  


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

... do Diário de um Adolescente com a mania da saúde

quinta-feira, janeiro 21, 2016 0
... do Diário de um Adolescente com a mania da saúde

Hoje voltamos ao Memórias dos Outros, onde o Paulo Neto vai-nos falar sobre um livro juvenil que o marcou, o Diário de um Adolescente com a mania da saúde. Escrito por dois psiquiatras, abordava de forma descontraída alguns problemas dos adolescentes. Vamos então ler o texto do Paulo.

Eu nunca li nada da famosa saga de Adrian Mole e muito menos vi a respectiva série. No entanto, houve outro adolescente igualmente neurótico e socialmente desastrado que se tornou um dos meus heróis da adolescência. O seu nome era Pedro Dores, protagonista do livro "Diário de um Adolescente com a Mania da Saúde", que recebi dos meus pais como presente do meu 12.º aniversário.

A versão original do livro data de 1986, sob o título "Diary of a Teenage Health Freak" e foi escrito por Aidan McFarlane e Ann McPherson, dois renomeados psiquiatras britânicos que se notabilizaram pelo seu trabalho com adolescentes. A edição portuguesa surgiu em 1990 pela editora Europa-América, traduzida pelo conhecido pedopsiquiatra Mário Cordeiro, amigo dos autores originais. Mais do que uma simples tradução, o Dr. Mário Cordeiro optou por fazer uma adaptação para a realidade portuguesa. Por isso, em vez do very british Peter Payne da versão original, a edição portuguesa narra as desventuras de Pedro Dores, um jovem tipicamente português de 14 anos que vive em Lisboa com os seus pais, as suas irmãs Cristina e Susana e o cão Tejo.

Tudo começa numa aula de Biologia, quando Pedro argumenta um hipotético problema cardíaco para não fazer a aula de Educação Física, ao que a professora reage dizendo-lhe que ele sofre de hipocondríase. Não sabendo o que quer dizer esse termo, ele recorre a um Dicionário Médico para descobrir que basicamente quer dizer a mania de ter doenças. A partir daí, sempre que confrontado com alguma questão de saúde, Pedro recorre ao Dicionário Médico para tirar dúvidas e ao seu diário para documentar as suas descobertas. Além disso, ao longo de um ano, o diário será um fiel confidente de Pedro sobre todas as suas aventuras e desventuras: o primeiro cigarro, a primeira bebedeira, um acidente de bicicleta, as turras com a irmã Susana, a conturbada vida amorosa e sexual da irmã Cristina, as discussões dos pais, as peripécias com os amigos Roque e João "Macaco" e as infrutíferas tentativas de conquistar Inês, a rapariga de quem ele gosta. Isto para além de abordar várias questões que preocupam a adolescência como as transformações corporais, a droga, as doenças sexualmente transmissíveis e a menstruação.



Uma passagem do livro que se destacou particularmente e com a qual fiz sucesso na escola quando levei o livro para mostrar essa parte aos meus colegas foi aquela onde havia uma lista de termos de calão para os órgãos genitais e actividades escatológicas. Foi aí que eu e a maioria dos meus colegas nos deparámos pela primeira vez com termos como "ás-de-copas" ou "boca-do-corpo", que aí figuravam a par de todos os palavrões que conhecíamos.
Este "Diário de um Adolescente com a Mania da Saúde" tornou-se um dos livros que definiram a minha adolescência, até porque me revia bastante no Pedro Dores de tal forma que quase que poderia ter sido eu a escrever certas passagens.

Nesse Natal, recebi a sequela, "Também Tenho a Mania da Saúde" (1991), onde a protagonista era Susana Dores, a irmã de Pedro, agora com dezasseis anos, que conferia a sua perspectiva feminina das vicissitudes da adolescência, abordando temas como a contracepção, a depressão, os distúrbios alimentares, o assédio sexual, a preocupação com o futuro profissional e claro, os sempiternos sexo, drogas, álcool e problemas familiares, escolares e amorosos.

Também dos mesmos autores, tive os livros "Eu e a Malta" (1993), onde seis jovens contam a sua versão dos acontecimentos durante e após uma festa da escola que terminou em embriaguez geral e "Como Sobreviver Em Viagem" (1994) onde um grupo de quatro amigos (incluindo duas personagens de "Eu e a Malta") fazem uma viagem pela Europa, onde por entre as inevitáveis aventuras, vão conversando com os problemas da transição da adolescência para a idade adulta.

Apesar de já estarem bastante datados (já o eram um pouco na altura em que eu os li), creio que estes quatro livros ainda podem ser lidos pelos adolescentes de hoje, pois apesar dos milhões de voltas que o mundo já deu desde então, existem certas coisas que sempre serão marcantes na vida de um adolescente

Paulo Neto







quinta-feira, 23 de julho de 2015

... da Alcina Lameiras

quinta-feira, julho 23, 2015 0
... da Alcina Lameiras

Voltamos a um memórias dos outros, com Paulo Neto a recordar uma das figuras marcantes dos números 0641. a Alcina Lameiras. O anúncio "Não negue à partida uma ciência que não conhece", entrou no léxico nacional e todos a reconheciam daí.

Hoje em dia há muitos protestos por causa de tantos programas das estações generalistas conterem o apelo aos telespectadores para ligarem para um número de telefone começado por 760 e, em tempos de crise, gastarem 60 cêntimos mais IVA em cada chamada por uma vaga hipótese de ganharem uma quantia em dinheiro em cartão de débito ou barras de ouro.

Nos anos 90 porém a situação era decididamente outra, pelo que foi nesta década que surgiram no nosso país as chamadas de valor acrescentado. Se bem se lembram, inicialmente estas requeriam o indicativo 506 para Lisboa e Porto e 0670 para o resto do país e mais tarde uniformizou-se o indicativo 0641 para todo o país. Mesmo gastando mais de 200 escudos (1 euro) por minuto, foram muitos os portugueses que não se fizeram rogados em digitar (ou quiçá ainda discar) esses números.

Eram três os serviços mais comuns oferecidos através dessas linhas: os de concursos (foi através dessas chamadas que eu ganhei alguns prémios, incluindo uma Super Nintendo e uma assinatura trimestral da revista Super Jovem), os das linhas eróticas (quem não se recorda do famoso bordão "Me liga, vai!"?) e as linhas esotéricas, através das quais muitos quiseram saber o que os astros ou as cartas de tarot lhes reservavam.

Alguns nomes conhecidos do panorama esotérico nacional aderiram estes serviços como Paulo Cardoso, Maya, o senhor do Oráculo de Bellini cujo nome não me recordo e o ex-coreógrafo dos Onda Choc António Miguens (que também entrou na telenovela "Palavras Cruzadas" no papel de Miguel).



E houve também uma senhora que entrou para o imaginário nacional graças aos seus anúncios no período áureo das chamadas 0641. Tudo graças aos seu apelo: "Não negue à partida uma ciência que não conhece". O seu nome: Alcina Lameiras.

Filmada naquele que parece ser o seu consultório, Alcina Lameiras convidava-nos a ligar para a sua linha de tarot, afirmando que nos queria ajudar a encontrar a felicidade e que através da sua experiência, podia tornar a nossa vida num verdadeiro sucesso. Tudo isto pela módica quantia mínima divulgada em rodapé de 371$62 (cerca de 1,85 euros), a 202 escudos por minuto. Apesar de toda a sua retórica ao longo do anúncio, bastou a primeira frase para que Alcina Lameiras se tornasse um ícone do esoterismo 0641.

Recordo-me também que havia outro anúncio de Alcina Lameiras, mas este ainda não encontrei na internet. Nesse anúncio, Alcina Lameiras surgia de mini-saia sentada numa cadeira diante de um cenário estrelado e de uma roda astrológica, promovendo a sua linha de astrologia. Mais uma vez, Alcina afirmava convictamente que através da sua linha astrológica, especializada em compatibilidade amorosa dos signos, "os casados poderão melhorar a sua relação e os 'livres' encontrar o seu par ideal".

Também me recordo de que Alcina Lameiras, no auge da sua fama, chegou a ser convidada para alguns programas de televisão como por exemplo, numa das emissões da Volta a Portugal (cuja cobertura na altura pertencia à SIC), creio que para dizer quem os astros indicavam que seria o ciclista vencedor.

Contudo, passado o seu breve período de fama, nunca mais se ouviu falar de Alcina Lameiras e hoje nem sei se a senhora ainda é viva. Quero pensar que sim, que continua activa nas suas consultas de tarot e astrologia no mesmíssimo consultório onde foi filmado o anúncio e que um dia fará um glorioso comeback apresentado na televisão um programa de tele-esoterismo, semelhante àquele da D. Maria Helena na SIC ou o daquelas senhoras nas altas horas da TVI. Seja como for, para sempre deixou o bordão "Não negue à partida uma ciência que não conhece" e só por isso, Alcina Lameiras merece o nosso aplauso.  

Paulo Neto é escritor, colaborador da Enciclopédia de cromos e ocasional colaborador neste blog.










domingo, 1 de março de 2015

... do Amo-te Teresa

domingo, março 01, 2015 0
... do Amo-te Teresa

Volto a ter aqui um "Memórias dos outros", para se recordar um telefilme que fez história, o Amo-te Teresa da SIC. Um filme que provocou discussões na opinião pública e que ajudou a lançar a carreira de Diogo Morgado.

Até ao fenómeno Big Brother, o grande acontecimento no panorama televisivo em Portugal no 2000 foi um conjunto de telefilmes produzidos e emitidos pela SIC. A iniciativa, denominada SIC Filmes, foi anunciada com pompa e circunstância e consistiu na produção de doze telefilmes, cada um exibido em cada mês do ano. Ainda longe de se pensar que em Setembro desse ano, a TVI daria os passos para alcançar o ceptro da liderança que a SIC orgulhosamente ostentava, a estação de Queluz ainda reinava indiscutivelmente  e esta iniciativa foi aguardada com muita expectativa, até porque o telefilme era até então um produto televisivo algo raro e pouco explorado em Portugal.

Entre os telefilmes resultantes da SIC Filmes, contam-se títulos como "Monsanto", "Facas e Anjos", "Mustang", "O Lampião da Estrela", "Aniversário" e "A Noiva". Mas o mais famoso e recordado de todos foi sem dúvida o primeiro deles todos, "Amo-te Teresa" que Portugal parou para ver no dia 11 de Janeiro de 2000.

Realizado por Ricardo Espírito Santo e Cristina Boavida (jornalista da SIC e autora do argumento), "Amo-te Teresa" narrava a história do amor proibido entre uma mulher adulta e um adolescente, interpretados por Ana Padrão e Diogo Morgado.    



Teresa (Ana Padrão) é uma médica que, após o fim de uma relação, decide trocar Lisboa pela vila alentejana onde nasceu para trabalhar no Centro de Saúde local. Apesar de guardar ressentimento sobre a reacção local a um escândalo que envolveu os seus pais, acaba por adaptar-se à vida local.
Teresa retoma a amizade de infância com Paula (Maria João Abreu) e muda-se para a casa em frente dela. Entretanto descobre que Miguel (Diogo Morgado), o rapaz que conheceu no dia da sua chegada à vila quando o avião telecomandado dele chocou contra o carro dela, é o filho mais velho de Paula. Miguel é um adolescente 15 anos, bonito e sensível, que para além da paixão pelo aeromodelismo, adora desenhar.

Apesar da diferença de idades e dos riscos que isso implica, Teresa e Miguel desenvolvem uma forte cumplicidade e uma atracção à qual são incapazes de resistir. Os dois chegam mesmo a ter momentos de ciúmes, Teresa em relação a Sandra (Margarida Vila-Nova), uma colega de Miguel, e este face a Vítor (José Wallenstein), um amigo de Teresa que vem de Lisboa visitá-la.

Tudo se complica quando Cândida (Isabel de Castro), a avó de Miguel que nunca gostou de Teresa, descobre desenhos de Teresa nua feito pelo neto e Paula surpreende os dois abraçados na casa dele. Escorraçada pela população, Teresa regressa a Lisboa mas Miguel não desiste da relação entre ambos, só que está tudo contra eles. Só depois de pagarem um duro preço é que Teresa e Miguel poderão ficar finalmente juntos.

Com todos os ingrediente típicos de uma telenovela condensados em 90 minutos, "Amo-te Teresa" foi um sucesso de audiência. Do elenco fizeram também parte nomes como Marcantónio Del Carlo, Sinde Filipe, Maria Emília Correia, Afonso Pimental e Sílvia Alberto. Como não podia deixar de ser, Herman José fez uma paródia ao filme intitulada "Babo-te Teresa", onde Herman recuperava a mítica Maximiana e Maria Rueff fazia de uma mulher de 35 anos que vivia um amor proibido com um idoso de 95 anos.



Embora Diogo Morgado já fosse conhecido de outros trabalhos como a telenovela "Terra Mãe", foi sem dúvida com "Amo-te Teresa" que lançou a carreira daquele que agora é mundialmente conhecido como o "Hot Jesus". Morgado entraria também noutro telefilme da SIC, "A Noiva", onde confirmou aos 19 anos a sua versatilidade fazendo de uma personagem de trinta anos, ao invés de ter feito de adolescente em "Amo-te Teresa".

"Amo-te Teresa", bem com outros telefilmes que se seguiram, tiveram direito a edição em VHS e a uma novelização em livro. A iniciativa SIC Filmes foi prolongada em 2001, mas com menor sucesso. Segundo o IMDB, o telefilme foi exibido em 2005 na Hungria.

De referir ainda que a principal música do filme é "Asas (Eléctricas)" dos GNR, que também foi o primeiro single do seu álbum "Pop Less".

Paulo Neto é escritor e nos seus tempos livres gosta de colaborar com blogs de nostalgia.














segunda-feira, 10 de novembro de 2014

... do Titanic

segunda-feira, novembro 10, 2014 0
... do Titanic


Voltamos à rubrica Memórias dos Outros, desta feita com mais uma lembrança do escritor Paulo Neto, que recorda aqui um dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos e um dos filmes mais importantes da década de 90, o Titanic. Como nunca vi o filme, resisti heroicamente, esta recordação teria que ser feita por alguém que assistiu ao mesmo, por isso aqui vai esse texto.

O passar do tempo parece não ter sido muito benévolo para "Titanic", ao ponto de agora parecer ser um pet hate de muitos cinéfilos e de poucos admitirem que gostam do filme. Eu próprio tenho o receio de que se voltar a rever o filme, vou ficar muito desiludido e prefiro guardar a magia de quando o vi no cinema. Mas quando o épico filme de James Cameron estreou nos cinemas em 1997, deu-se provavelmente o maior ataque de histeria colectiva por um filme, pelo menos que eu assisti (o fenómeno de "Avatar" passou-me um pouco ao lado). Lembro-me de que não se falava outra coisa na escola, ouvia relatos de gente que ia ver repetidas vezes ao cinema e tudo o que fosse relacionado com o filme e com o barco itself era amplamente dissecado e capitalizado.

Eis uma ideia da loucura que foi. Na minha cidade só havia então uma única sala de cinema e era bastante raro que um filme ficasse mais de uma semana em cartaz, e já tinha sido um grande feito quando o "Parque Jurássico" ficou três semanas. Pois bem, "Titanic" ficou em cartaz no Estúdio Alfa de Torres Novas sete semanas, seis delas consecutivas. Até a minha ida para ver o filme foi épica: cheguei ao cinema no domingo da primeira semana de exibição duas horas antes das bilheteiras abrirem e dei com um papel a dizer que já não havia bilhetes para aquele dia e só havia quatro bilhetes da primeira fila para segunda-feira e para quatro filas na terça. Depois de eu chegar, não tardou a formar-se uma grande fila na bilheteira, e quando já estava convencido que só iria ver o filme dali a dois dias, a senhora da bilheteira diz que havia uma desistência para a matiné de domingo! Claro que essa vaga foi logo para mim.



A história toda a gente conhece: em 1996, uma equipa de investigadores busca um precioso diamante, o "Heart of the Ocean", nos destroços do Titanic e descobre um quadro de uma jovem nua com a jóia. Rose Dawson (Gloria Stuart), uma idosa centenária, afirma ser a jovem do retrato e relata em flashback a sua história de como sobreviveu ao naufrágio do Titanic em 1912.

Nesse tempo, era Rose Dewitt-Bukater (Kate Winslet), uma jovem aristocrata inglesa que estava noiva de Cal Hockley (Billy Zane), um abastado herdeiro americano. Desagradada com a arrogância e tacanhez do noivo e pressionada pela sua mãe Ruth (Frances Fisher), que pretende manter a todo o custo o estatuto social, pois o seu falecido marido deixou-as à beira da penúria, Rose lamenta a sua sorte e considera atirar-se do navio, sendo salva por Jack Dawson (Leonardo Di Caprio), um jovem à deriva na vida que conseguiu a passagem para o Titanic num jogo de póquer. Mesmo contra a forte oposição de Cal e Ruth, Jack e Rose apaixonam-se e pretendem desembarcar juntos até que o barco é atingido por um iceberg e os dois vêem-se numa frenética luta pela sobrevivência perante o iminente naufrágio.

Várias cenas ficaram para a história: Jack na proa a gritar "I'm the king of the world!", Jack a desenhar Rose nua, Rose de braços estendidos na proa, a consumação do amor entre o casal no banco de trás de um carro, Rose de machado na mão a libertar um Jack algemado pelo vil capanga de Cal de irónico nome Lovejoy (David Warner), um Jack já morto de hipotermia a sumir nas profundezas do mar e a Rose velhinha a atirar o famigerado diamante, que esteve sempre na sua posse, ao mar.


Lembro-me também de ter criado empatia com duas outras personagens: Molly Brown (Kathy Bates) uma divertida e desbocada nova rica que é apenas tolerada pelos outros passageiros da primeira classe pelo seu dinheiro, e Fabrizio Rossi (Danny Nucci), o comparsa italiano de Jack, de quem tive imensa pena de não ter sobrevivido. Não, não chorei a ver o filme, mas vontade não me faltou. E a julgar pela quantidade de fungos e assoares que ouvia e olhos vermelhos que vi à saída, devo ter sido dos poucos que não choraram. Aliás, foi  o primeiro filme que muitos homens de barba rija não tiveram vergonha de admitir que os fez chorar!

Com um então nunca visto orçamento de 200 milhões de dólares, era o filme mais caro até então e ao longo de todo o processo, pairou sempre a sombra de um possível desastre de proporções titâncas. Titânico foi sim o sucesso, tornando-se o maior êxito de bilheteira até então, apenas suplantado em 2009 pelo seguinte opus de James Cameron, "Avatar". Leonardo Di Caprio e Kate Winslet  foram elevados a superestrelas e voltariam a formar par romântico em "Revolutionary Road" em 2009. O filme igualou o recorde de Óscares (onze) e nomeações (catorze, onde faltou estranhamente a de melhor actor para DiCaprio). E a banda sonora de James Horner também foi campeã de vendas, apesar de ser quase instrumental, excepção feita ao célebre tema "My Heart Will Go On" interpretado por Celine Dion. Apesar de já recheada de hits, tornou-se o maior sucesso da canadiana.

Tenho receio de me desapontar se voltar a ver o "Titanic", afinal o mundo mudou tanto desde então e já há muito que a minha inocência de então se diluiu. Mas seja como for, nada me tirará as memórias da magia de que foi ter ido vê-lo ao cinema em princípios de 1998, um dos anos mais marcantes da minha vida, e como o filme evoca um período feliz da minha existência.







Paulo Neto é um escritor que gosta de colaborar com diversos blogs que o ajudem a recordar outros tempos saudosos. Agradeço a sua colaboração com o meu.




segunda-feira, 16 de junho de 2014

... do Mini Chuva de Estrelas

segunda-feira, junho 16, 2014 0
... do Mini Chuva de Estrelas

Volto a ter um autor convidado, de novo Paulo Neto que vai recordar um dos programas emblemáticos da SIC de outros tempos, a Mini Chuva de Estrelas. Um programa que achei super deprimente, ao ver crianças todas cheias de maquilhagem (muitas vezes de forma exagerada), apresentado por Margarida Reis que também não achava muita piada.


Quem nunca fingiu ser um cantor famoso, no quarto, cantando ao som da rádio e/ou dos discos, com microfones improvisados (escovas de cabelo, canetas, colheres de pau, etc)? Esta típica brincadeira infantil foi sem dúvida a inspiração para o "Mini Chuva de Estrelas", programa que passou na SIC em duas temporadas durante os Verões de 1994 e 1995, durante o hiato da "Chuva de Estrelas" dos graúdos, nas noites de sexta-feira.

Apresentado por Margarida Reis, pelo programa passavam crianças entre os cinco e os dez anos, que tal como a sua versão sénior, eram entrevistadas num cenário a imitar um camarim e depois actuavam em palco, vestidas e caracterizadas conforme a estrela escolhida. A principal diferença é que não cantavam mas sim faziam playback da versão original, ainda que alguns petizes demonstrassem os seus talentos de canto na entrevista.

Depois da actuação, seguia-se a apreciação do júri, composto por Fernando Martins, Maria Vieira (que substituiu Teresa Ricou após umas sessões) e o convidado semanal, que decidiam qual era o vencedor em cada semana. (Na primeira temporada, era também atribuído um segundo lugar, algo que foi descontinuado na temporada seguinte). Também ao contrário do Chuva dos adultos, não havia apuramentos para a fase seguinte, pelo que não havia um vencedor absoluto.



O final era, como se impunha, em tons de apoteose e festa ao som do tema "Todos Juntos" (que continua gravado nos nossos discos rígidos) interpretado pela própria Margarida Reis e os Popeline (que eram uma espécie de equipa B dos Onda Choc)

Entre os cantores mais frequentemente imitados estavam Madonna, Michael Jackson, Dulce Pontes, Roberto Leal, Guns 'n' Roses, Bryan Adams e Mariah Carey. Mas o leque de imitações mirim que passaram pelo programa foi muito diversificado, indo dos cantores e grupos que faziam sucesso na época a glórias do passado (como por exemplo Elvis Presley, Liza Minelli e até Mirita "Maria Papoila" Casimiro), ou até mesmo desenhos animados como Jessica Rabbitt e a Pequena Sereia. Houve até mesmo casos de travestismo, pois recordo-me de duas meninas que encarnaram Jon Bon Jovi e Elton John e de um rapaz que não se acanhou em fazer-se passar pela metade feminina do Duo Ele & Ela! E num caso de full circle, houve duas concorrentes (uma delas minha conterrânea) a imitar Sara Tavares, a primeira vencedora do "Chuva de Estrelas".

Eu já conhecia o programa antes de este chegar a Portugal, pois durante um breve período em que houve antena parabólica na nossa casa, eu e a minha família víamos ocasionalmente a versão alemã (intitulada "Mini Playback Show"). Porém, este supostamente pueril e inofensivo programa gerou imensa controvérsia na época. A principal crítica era o facto dos petizes fazerem playback em vez de cantar mas também muitas vozes de vários quadrantes acusaram o programa de ser um produto exploratório - ou até mesmo sexualizante - para as crianças e que estas podiam ficar traumatizadas. Até surgiram vários boatos de que alguns dos pequenos participantes tinham ficado com problemas psicológicos e que tinham dado entrada em hospitais por causa disso. No entanto, o tempo demonstrou que este era mais um caso de muito barulho por nada, ocorrência tão típica no nosso país.

Hoje em dia, todos os concorrentes do "Mini Chuva de Estrelas" já são adultos, muitos deles provavelmente já são pais e a esmagadora maioria regressou alegremente ao anonimato após esses minutos de fama televisiva. Mas pelo menos uma das pequenas concorrentes veio-se a tornar uma conhecida actriz. Quem foi? Foi ninguém menos que Vera Kolodzig, que aos nove anos, ganhou a sessão em que participou imitando Marilyn Monroe com o célebre "I wanna be loved by you". Alguns anos mais tarde, seria escolhida para o papel principal da telenovela "Jardins Proibidos", dando aí início uma frutuosa carreira nas telenovelas da TVI. Também vim a descobrir que o cantor Tiago Teixeira, mais conhecido por T.T., também por lá passou mas não sei quem ele imitou.

E o que é feito de Margarida Reis, há muito afastada dos nossos ecrãs? Segundo um artigo que li há tempos num suplemento de televisão do Correio da Manhã, casou-se com um empresário americano e vive há vários anos nos Estados Unidos.

By Paulo Neto, escritor de livros como Motivos para Sorrir


















quinta-feira, 6 de março de 2014

... do Na Cama com... Alexandra Lencastre

quinta-feira, março 06, 2014 0
... do Na Cama com... Alexandra Lencastre

Hoje é um dia importante para o blog, vai ser a estreia de um texto de outra pessoa e consequentemente de uma nova rubrica no blog, Memórias dos Outros, onde irei ter convidados a falar de algo que lhes marcou a memória. Para estreia tenho o escritor Paulo Neto, que vem aqui falar de um dos primeiros programas da SIC, o Na Cama com.. estrelando Alexandra Lencastre.

Em 1993 e 1994, as noites de sexta-feira na SIC ofereciam-nos dose dupla de beldades. Primeiro tínhamos Catarina Furtado, elevada a namoradinha de Portugal, a conduzir a primeira edição do "Chuva de Estrelas", depois tínhamos Alexandra Lencastre no (então) polémico talk show "Na Cama Com..."
Então ainda essencialmente reconhecida pelo grande público como a Guiomar da "Rua Sésamo", apesar de um já vasto currículo no cinema e no teatro e de se ter estreado em telenovelas em "A Banqueira do Povo", Alexandra Lencastre pretendia conquistar um público mais adulto com este programa de entrevistas, que se desenrolava num cenário de um quarto, com a apresentadora e os convidados sentados ora em cima de uma cama ou numa cadeira que por lá estivesse. O ambiente de intimidade do cenário pretendia que as entrevistas se desenrolassem num tom informal, descontraído e introspectivo, longe da formalidade e da solenidade com que se costumava entrevistar na televisão. O genérico mostrava um buraco de fechadura por onde se espreitava o cenário com Alexandra a ler um livro sentada na cama, enquanto se ouvia o imortal "Whiter Shade of Pale" dos Procol Harum, reforçava essa atmosfera íntima. O título do programa era uma alusão ao filme-documentário "Na Cama com Madonna" (1992).

Pelo programa passaram personalidades de vários quadrantes: música, televisão, desporto, política, etc. Por exemplo, o astrólogo Paulo Cardoso, Marco Paulo, Diogo Infante, Sérgio Godinho, Rita Blanco (esta levando à letra o título do programa aparecendo de pijama) e a actriz brasileira Glória Pires, que na altura brilhava na telenovela "Mulheres de Areia".

Porém o programa mais famoso foi aquele em que a entrevistada foi Lilian Ramos. Quem? Tratava-se de uma bailarina/modelo brasileira que surgiu nas bocas do mundo no Carnaval do Rio de Janeiro de 1994 ao ser fotografada junto do então presidente do Brasil Itamar Franco (que ocupara o cargo após a demissão de Fernando Collor de Mello por causa de um escândalo de corrupção). Acontece que nas fotos, Lilian Ramos surgia apenas vestida com uma T-shirt e sem nada por debaixo. Como havia fotógrafos mesmo por debaixo do camarote presidencial, as fotos forneciam uma vista privilegiada das partes íntimas de Lilian. O escândalo foi inevitável e quase se equacionou a demissão de Itamar Franco mas depressa o barulho desvaneceu. Esta ida a Portugal foi um dos poucos gestos de Lilian Ramos para capitalizar a sua inesperada fama. Mais tarde, ofendida com aqueles que a chamavam de interesseira e prostituta, Lilian Ramos acabaria ainda em 1994 por se radicar em Itália, onde vive até hoje. O seu site oficial é este.

Sob uma perspectiva actual, o conceito do programa é bastante inofensivo e se fosse recuperado hoje não seria nada que levantasse ondas. Mas na altura, tratava-se de um conceito ainda suficientemente ousado para que houvesse muita gente a criticar o programa, desde a mera ideia de haver uma cama metida ao barulho a uma alegada falta de respeito e de postura a que a apresentadora e os convidados se sujeitavam. Por causa disso, algumas figuras públicas que terão recusado ir ao programa. Estávamos em plenos anos 90 mas algumas correntes mais conservadoras ainda tinham a sua força...

Pois eu, então com 13/14 anos, apreciava o aspecto inovador do programa e achava que pelo menos era uma melhor ideia do que por exemplo, um "Em Cima da Árvore Com..."

By Paulo Neto, escritor de livros como Motivos para Sorrir