0

Voltamos ao Memórias dos Outros, desta vez com uma estreia, a da escritora Aida Teixeira, que nos vem dar a sua visão pessoal sobre uma personagem mítica da nossa infância, a Pipi das Meias Altas. Uma criação da autora Astrid Lindgren, esta menina sardenta e de cabelos ruivos conquistou o mundo, vivendo aventuras onde mostrava toda a sua força física e a sua simpatia.

Eu ainda sou do tempo em que nem todas as casas tinham electricidade. Quando mudei para uma casa que tinha, também ganhei uma nova amiga: a Televisão. E foi assim que conheci a Pipi das Meias Altas, ou se quiserem a Pippilotta Viktualia Rullgardina Krusmynta Efraimsdotter Långstrump.

Caramba, lembro-me bem que toda eu era inveja daquela catraia que tinha super poderes, e como se isso não bastasse também tinha o Herr Nilsson (macaco), e a liberdade de fazer tudo o que lhe apetecia. Reli a minha caderneta de cromos (sim, sim, ainda tenho a caderneta de cromos, já tem 40 anos, e está incompleta), e ri-me.

Uma coisa era a série de televisão, que nos fazia sonhar, e a víamos em acção a dar cabo do canastro ao Sven, o Sanguinário, e ao Jock, o Cutelo, a viajar de balão deitada numa cama, a apoderar-se dos barcos dos piratas com uma facilidade embaraçante (para os piratas, claro). Outra coisa era a história contada na caderneta de cromos, e foi por isso que me ri quando comecei a reler, 40 anos depois de a ter comprado.


A Pippi com as suas tranças cor de cenoura, marrafa toda incerta, e tão politicamente incorrecta, felizmente. Vi um episódio onde ela fumou um charuto, roubava barcos, agredia com a sua super força naqueles que se lhe atravessavam no caminho, andava com 2 crianças (Tommy, e Annika) que os pais tinham deixado consigo “um belo dia os pais de Tommy e Annika resolveram ter três semanas de férias e deixaram-nos entregues aos cuidados da vossa amiguinha Pippi meias altas”. Oi?? 3 semanas? Aqueles pais nunca ouviram falar de “abandono de menores”, e nós, na altura, também não.

Não se levantou uma hoste de justiceiros a pedir que aqueles pais fossem apedrejados em praça pública, quiçá até perderem o direito de serem pais, e as crianças serem entregues para adopção!
O cavalo foi abandonado, sozinho, com vários potes de comida, embora lhe tivessem recomendado para “repartir bem as rações”. Suponho que o Lilla gubben não foi glutão, e conseguiu gerir a ração e a água, até a sua dona super poderosa voltar. Cá estaria mais um motivo para os justiceiros actuais partirem numa demanda – abandono do animal.

A série teve 13 episódios, indo para o ar pela primeira vez em 1969, sendo transmitido pela RTP por diversas vezes nas décadas de 70 e 80, conquistando também por cá uma legião de fãs. No Brasil recebeu o nome de Pippi Meialonga, e também por lá teve um grande sucesso. Por cá tivemos revistas, livros e cadernetas de cromos, tudo para fazer as delícias dos mais pequenos.

Não pensávamos em nada que não fosse ver a série por aquilo que ela realmente era: uma série de entretenimento para crianças. Se gostava de a rever? Claro… que não!! Não gosto de estragar as minhas memórias.


Aida Teixeira é autora de livros infantis e agora também uma colaboradora ocasional do Ainda sou do tempo. Podem ver a sua obra aqui.










Enviar um comentário Blogger