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Voltamos a mais um Memórias dos Outros, com o escritor Paulo Neto a trazer-nos a sua recordação sobre a Fábula de Rock&Roll do cinema dos anos 80, o filme Streets of Fire, conhecido por cá também como Estrada de Fogo.

Nos anos 80, houve certos filmes que precisaram de conhecer o fracasso na altura e deixar o tempo passar para se tornarem uma paradigmática cápsula do tempo dos anos 80 e assim serem. elevado a filme de culto. É o caso deste filme que precisou de outro tempo e de outro lugar para ser apreciado.


Falo de "Estrada de Fogo" ("Streets of Fire", no original), também de 1984, realizado por Walter Hill ("48 Horas", "Os Selvagens da Noite"), que transpôs a sua habitual temática da lei das ruas para esta invulgar mescla de filme de acção com musical, definido como uma fábula rock & roll. O mítico Jim Steinman, famoso pelos suas épicas composições musicais interpretadas por Meat Loaf e Bonnie Tyler, contribuiu prolificamente para a parte musical do projecto, nomeadamente com a canção que viria a eternizar o filme.


Logo ao início as legendas que dizem "Another place, another time" avisam que estamos perante um universo paralelo onde o passado (anos 50) e o presente de então (anos 80) se misturam. Um concerto  da estrela rock Ellen Aim (Diane Lane) e da sua banda Ellen Aim & The Attackers na sua cidade natal é interrompido pelo gang The Bombers e o seu líder Raven Shaddock (Willem DeFoe) que rapta selvaticamente Ellen em pleno palco. A única esperança para salvar Ellen está numa sua antiga paixão Tom Cody (Michael Paré), que se tornou um duro e rude soldado de fortuna. Contactado pela sua irmã Reva (Deborah van Walkenburg), Tom Cody aceita a missão, acompanhado de McCoy (Amy Madigan), uma aguerrida ex-soldado e Billy Fish (Rick Moranis), o agente de Ellen. Antipatizando com Cody e apenas tolerando-o por não ter outra saída, Billy lembra-lhe constantemente que é ele quem paga a missão e quem namora actualmente com Ellen.



Cody e McCoy conseguem introduzir-se no antro dos Bombers e salvar Ellen. Raven descobre-os já em fuga e segue em seu encalço. Durante a alucinante fuga, Cody, Ellen, Billy e McCoy acabam por arrastar com eles também uma fã de Ellen (Elizabeth Daily) e The Sorels, um grupo de doo-wop que viaja num autocarro. Quando chegam à cidade, Ellen desilude-se quando Billy afirma que Cody só concordou em salvá-la por dinheiro. Mas quando este aceita apenas a parte prometida a McCoy, Ellen e Cody retomam brevemente o romance. Só que o iminente confronto com Raven vai mudar de novo o destino de ambos...

Promovido como um dos blockbusters no Verão de 1984, "Estrada de Fogo" acabou por ser um fracasso de bilheteira e foi achincalhado na crítica. E de facto, contém várias pontas soltas que impedem de ser o grande filme que poderia ser. O principal problema estará porventura no protagonista, pois Michael Paré revela ter o carisma de uma ostra, demasiado caricatural nas cenas de acção e pouco convincente na parte romântica. Diane Lane é bela e sensual, mas nota-se que ainda estava um bocadinho verde para este seu primeiro grande papel. Willem DeFoe, apesar da sua habitual competência, também não consegue escapar à caricatura. Salvam-se sobretudo Amy Madigan, segura e convicente no seu papel de maria-rapaz (inicialmente escrito como uma personagem masculina) e Rick Moranis, que interpreta aqui uma variante interessante do sua eterna personagem de nerd que faz em todos os seus filmes, a do nerd fanfarrão e cheio de garganta, mas pouco traquejo. De assinalar também um cameo de Marine Jahan, que fez as partes de dança da protagonista de "Flashdance", como a stripper do antro dos Bombers. Também não percebo a personagem da groupie (Elizabeth Daily), a quem o grupo aceita que ela os acompanhe para que ela não denuncie Ellen e para eles não perderem tempo. Tirando esse primeiro momento, ela passa o resto do filme como um emplastro irrelevante.

Além da partitura musical de Ry Cooder, a banda sonora contava, além do já referido Jim Steinman, com composições de Stevie Nicks e Tom Petty, bem como canções de The Blasters, The Fixx, Marilyn Martin e Dan Hartman, que cantou "I Can Dream About You", o tema mais bem-sucedido do filme na altura (n.º 6 do top americano).
Porém seria eventualmente "Nowhere Fast", a canção que abre o filme, que daria a "Estrada de Fogo" o seu lugar na memória colectiva, especialmente em Portugal. Lembro-me que vi a primeira parte do filme quando passou na RTP no início dos anos 90 na mítica "Lotação Esgotada" de quarta-feira e de ter ficado impressionado com a canção. E eu não fui o único pois foi a partir daí que "Nowhere Fast" passou a ser amplamente tocada nas discotecas e na rádio, e a ser usada em programas de televisão (lembro-me de a ouvir por exemplo, no "Ai, Os Homens" durante uma prova de artes marciais de um concorrente).



"Nowhere fast" é interpretada pelos Fire Inc., que não eram mais que os habituais músicos de Jim Steinman, e a voz de quem Lane fazia playback no filme é a de Laurie Sargent. Um épico trepidante que tornou-se essencial em várias noites retro das discotecas em Portugal e não só. Também recomendo a audição do outro tema dos Fire Inc., o não menos épico "Tonight Is What It Means To Be Young"  que fecha o filme e que chegou a ser utilizado como uma das taglines.


A popularidade da banda sonora acabou por renovar o interesse em "Estrada de Fogo" e elevá-lo ao estatuto de culto. O passar dos anos acabou por ser gentil para o filme, que agora vê-se bem por não ser levado tanto a sério como na altura.  Vê-se como uma fantasia surreal  ao estilo videoclip, ou não houvesse uma parte em que parece que o filme pára para dar lugar a um videoclip de Diane Lane a fazer playback de uma das canções do filme. Ou então, como afirmou Nuno Markl, como uma banda desenhada com gente de carne e osso. Seja como for, quando descobri o DVD em promoção na FNAC, decidi comprá-lo e apesar de todas as falhas e incipiências, vê-se com agrado e com um toque de nostalgia eighties

"Estrada de Fogo" esteve inicialmente pensado para ser o primeiro tomo de uma trilogia de Tom Cody, mas o insucesso comercial inviabilizou a continuação do projecto. Porém, em 2008, houve uma sequela não oficial e que passou completamente despercebida fora do circuito independente, "Road to Hell" com Michael Paré e Deborah van Valkenburg a retomarem os seus papéis.








Mais um texto de Paulo Neto, ao qual agradeço pelo tempo dispensado.

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