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Hoje voltamos ao Memórias dos Outros, onde o Paulo Neto vai-nos falar sobre um livro juvenil que o marcou, o Diário de um Adolescente com a mania da saúde. Escrito por dois psiquiatras, abordava de forma descontraída alguns problemas dos adolescentes. Vamos então ler o texto do Paulo.

Eu nunca li nada da famosa saga de Adrian Mole e muito menos vi a respectiva série. No entanto, houve outro adolescente igualmente neurótico e socialmente desastrado que se tornou um dos meus heróis da adolescência. O seu nome era Pedro Dores, protagonista do livro "Diário de um Adolescente com a Mania da Saúde", que recebi dos meus pais como presente do meu 12.º aniversário.

A versão original do livro data de 1986, sob o título "Diary of a Teenage Health Freak" e foi escrito por Aidan McFarlane e Ann McPherson, dois renomeados psiquiatras britânicos que se notabilizaram pelo seu trabalho com adolescentes. A edição portuguesa surgiu em 1990 pela editora Europa-América, traduzida pelo conhecido pedopsiquiatra Mário Cordeiro, amigo dos autores originais. Mais do que uma simples tradução, o Dr. Mário Cordeiro optou por fazer uma adaptação para a realidade portuguesa. Por isso, em vez do very british Peter Payne da versão original, a edição portuguesa narra as desventuras de Pedro Dores, um jovem tipicamente português de 14 anos que vive em Lisboa com os seus pais, as suas irmãs Cristina e Susana e o cão Tejo.

Tudo começa numa aula de Biologia, quando Pedro argumenta um hipotético problema cardíaco para não fazer a aula de Educação Física, ao que a professora reage dizendo-lhe que ele sofre de hipocondríase. Não sabendo o que quer dizer esse termo, ele recorre a um Dicionário Médico para descobrir que basicamente quer dizer a mania de ter doenças. A partir daí, sempre que confrontado com alguma questão de saúde, Pedro recorre ao Dicionário Médico para tirar dúvidas e ao seu diário para documentar as suas descobertas. Além disso, ao longo de um ano, o diário será um fiel confidente de Pedro sobre todas as suas aventuras e desventuras: o primeiro cigarro, a primeira bebedeira, um acidente de bicicleta, as turras com a irmã Susana, a conturbada vida amorosa e sexual da irmã Cristina, as discussões dos pais, as peripécias com os amigos Roque e João "Macaco" e as infrutíferas tentativas de conquistar Inês, a rapariga de quem ele gosta. Isto para além de abordar várias questões que preocupam a adolescência como as transformações corporais, a droga, as doenças sexualmente transmissíveis e a menstruação.



Uma passagem do livro que se destacou particularmente e com a qual fiz sucesso na escola quando levei o livro para mostrar essa parte aos meus colegas foi aquela onde havia uma lista de termos de calão para os órgãos genitais e actividades escatológicas. Foi aí que eu e a maioria dos meus colegas nos deparámos pela primeira vez com termos como "ás-de-copas" ou "boca-do-corpo", que aí figuravam a par de todos os palavrões que conhecíamos.
Este "Diário de um Adolescente com a Mania da Saúde" tornou-se um dos livros que definiram a minha adolescência, até porque me revia bastante no Pedro Dores de tal forma que quase que poderia ter sido eu a escrever certas passagens.

Nesse Natal, recebi a sequela, "Também Tenho a Mania da Saúde" (1991), onde a protagonista era Susana Dores, a irmã de Pedro, agora com dezasseis anos, que conferia a sua perspectiva feminina das vicissitudes da adolescência, abordando temas como a contracepção, a depressão, os distúrbios alimentares, o assédio sexual, a preocupação com o futuro profissional e claro, os sempiternos sexo, drogas, álcool e problemas familiares, escolares e amorosos.

Também dos mesmos autores, tive os livros "Eu e a Malta" (1993), onde seis jovens contam a sua versão dos acontecimentos durante e após uma festa da escola que terminou em embriaguez geral e "Como Sobreviver Em Viagem" (1994) onde um grupo de quatro amigos (incluindo duas personagens de "Eu e a Malta") fazem uma viagem pela Europa, onde por entre as inevitáveis aventuras, vão conversando com os problemas da transição da adolescência para a idade adulta.

Apesar de já estarem bastante datados (já o eram um pouco na altura em que eu os li), creio que estes quatro livros ainda podem ser lidos pelos adolescentes de hoje, pois apesar dos milhões de voltas que o mundo já deu desde então, existem certas coisas que sempre serão marcantes na vida de um adolescente

Paulo Neto







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