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Voltamos a um memórias dos outros, com Paulo Neto a recordar uma das figuras marcantes dos números 0641. a Alcina Lameiras. O anúncio "Não negue à partida uma ciência que não conhece", entrou no léxico nacional e todos a reconheciam daí.

Hoje em dia há muitos protestos por causa de tantos programas das estações generalistas conterem o apelo aos telespectadores para ligarem para um número de telefone começado por 760 e, em tempos de crise, gastarem 60 cêntimos mais IVA em cada chamada por uma vaga hipótese de ganharem uma quantia em dinheiro em cartão de débito ou barras de ouro.

Nos anos 90 porém a situação era decididamente outra, pelo que foi nesta década que surgiram no nosso país as chamadas de valor acrescentado. Se bem se lembram, inicialmente estas requeriam o indicativo 506 para Lisboa e Porto e 0670 para o resto do país e mais tarde uniformizou-se o indicativo 0641 para todo o país. Mesmo gastando mais de 200 escudos (1 euro) por minuto, foram muitos os portugueses que não se fizeram rogados em digitar (ou quiçá ainda discar) esses números.

Eram três os serviços mais comuns oferecidos através dessas linhas: os de concursos (foi através dessas chamadas que eu ganhei alguns prémios, incluindo uma Super Nintendo e uma assinatura trimestral da revista Super Jovem), os das linhas eróticas (quem não se recorda do famoso bordão "Me liga, vai!"?) e as linhas esotéricas, através das quais muitos quiseram saber o que os astros ou as cartas de tarot lhes reservavam.

Alguns nomes conhecidos do panorama esotérico nacional aderiram estes serviços como Paulo Cardoso, Maya, o senhor do Oráculo de Bellini cujo nome não me recordo e o ex-coreógrafo dos Onda Choc António Miguens (que também entrou na telenovela "Palavras Cruzadas" no papel de Miguel).



E houve também uma senhora que entrou para o imaginário nacional graças aos seus anúncios no período áureo das chamadas 0641. Tudo graças aos seu apelo: "Não negue à partida uma ciência que não conhece". O seu nome: Alcina Lameiras.

Filmada naquele que parece ser o seu consultório, Alcina Lameiras convidava-nos a ligar para a sua linha de tarot, afirmando que nos queria ajudar a encontrar a felicidade e que através da sua experiência, podia tornar a nossa vida num verdadeiro sucesso. Tudo isto pela módica quantia mínima divulgada em rodapé de 371$62 (cerca de 1,85 euros), a 202 escudos por minuto. Apesar de toda a sua retórica ao longo do anúncio, bastou a primeira frase para que Alcina Lameiras se tornasse um ícone do esoterismo 0641.

Recordo-me também que havia outro anúncio de Alcina Lameiras, mas este ainda não encontrei na internet. Nesse anúncio, Alcina Lameiras surgia de mini-saia sentada numa cadeira diante de um cenário estrelado e de uma roda astrológica, promovendo a sua linha de astrologia. Mais uma vez, Alcina afirmava convictamente que através da sua linha astrológica, especializada em compatibilidade amorosa dos signos, "os casados poderão melhorar a sua relação e os 'livres' encontrar o seu par ideal".

Também me recordo de que Alcina Lameiras, no auge da sua fama, chegou a ser convidada para alguns programas de televisão como por exemplo, numa das emissões da Volta a Portugal (cuja cobertura na altura pertencia à SIC), creio que para dizer quem os astros indicavam que seria o ciclista vencedor.

Contudo, passado o seu breve período de fama, nunca mais se ouviu falar de Alcina Lameiras e hoje nem sei se a senhora ainda é viva. Quero pensar que sim, que continua activa nas suas consultas de tarot e astrologia no mesmíssimo consultório onde foi filmado o anúncio e que um dia fará um glorioso comeback apresentado na televisão um programa de tele-esoterismo, semelhante àquele da D. Maria Helena na SIC ou o daquelas senhoras nas altas horas da TVI. Seja como for, para sempre deixou o bordão "Não negue à partida uma ciência que não conhece" e só por isso, Alcina Lameiras merece o nosso aplauso.  

Paulo Neto é escritor, colaborador da Enciclopédia de cromos e ocasional colaborador neste blog.










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