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Voltamos à rubrica Memórias dos Outros, desta feita com mais uma lembrança do escritor Paulo Neto, que recorda aqui um dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos e um dos filmes mais importantes da década de 90, o Titanic. Como nunca vi o filme, resisti heroicamente, esta recordação teria que ser feita por alguém que assistiu ao mesmo, por isso aqui vai esse texto.

O passar do tempo parece não ter sido muito benévolo para "Titanic", ao ponto de agora parecer ser um pet hate de muitos cinéfilos e de poucos admitirem que gostam do filme. Eu próprio tenho o receio de que se voltar a rever o filme, vou ficar muito desiludido e prefiro guardar a magia de quando o vi no cinema. Mas quando o épico filme de James Cameron estreou nos cinemas em 1997, deu-se provavelmente o maior ataque de histeria colectiva por um filme, pelo menos que eu assisti (o fenómeno de "Avatar" passou-me um pouco ao lado). Lembro-me de que não se falava outra coisa na escola, ouvia relatos de gente que ia ver repetidas vezes ao cinema e tudo o que fosse relacionado com o filme e com o barco itself era amplamente dissecado e capitalizado.

Eis uma ideia da loucura que foi. Na minha cidade só havia então uma única sala de cinema e era bastante raro que um filme ficasse mais de uma semana em cartaz, e já tinha sido um grande feito quando o "Parque Jurássico" ficou três semanas. Pois bem, "Titanic" ficou em cartaz no Estúdio Alfa de Torres Novas sete semanas, seis delas consecutivas. Até a minha ida para ver o filme foi épica: cheguei ao cinema no domingo da primeira semana de exibição duas horas antes das bilheteiras abrirem e dei com um papel a dizer que já não havia bilhetes para aquele dia e só havia quatro bilhetes da primeira fila para segunda-feira e para quatro filas na terça. Depois de eu chegar, não tardou a formar-se uma grande fila na bilheteira, e quando já estava convencido que só iria ver o filme dali a dois dias, a senhora da bilheteira diz que havia uma desistência para a matiné de domingo! Claro que essa vaga foi logo para mim.



A história toda a gente conhece: em 1996, uma equipa de investigadores busca um precioso diamante, o "Heart of the Ocean", nos destroços do Titanic e descobre um quadro de uma jovem nua com a jóia. Rose Dawson (Gloria Stuart), uma idosa centenária, afirma ser a jovem do retrato e relata em flashback a sua história de como sobreviveu ao naufrágio do Titanic em 1912.

Nesse tempo, era Rose Dewitt-Bukater (Kate Winslet), uma jovem aristocrata inglesa que estava noiva de Cal Hockley (Billy Zane), um abastado herdeiro americano. Desagradada com a arrogância e tacanhez do noivo e pressionada pela sua mãe Ruth (Frances Fisher), que pretende manter a todo o custo o estatuto social, pois o seu falecido marido deixou-as à beira da penúria, Rose lamenta a sua sorte e considera atirar-se do navio, sendo salva por Jack Dawson (Leonardo Di Caprio), um jovem à deriva na vida que conseguiu a passagem para o Titanic num jogo de póquer. Mesmo contra a forte oposição de Cal e Ruth, Jack e Rose apaixonam-se e pretendem desembarcar juntos até que o barco é atingido por um iceberg e os dois vêem-se numa frenética luta pela sobrevivência perante o iminente naufrágio.

Várias cenas ficaram para a história: Jack na proa a gritar "I'm the king of the world!", Jack a desenhar Rose nua, Rose de braços estendidos na proa, a consumação do amor entre o casal no banco de trás de um carro, Rose de machado na mão a libertar um Jack algemado pelo vil capanga de Cal de irónico nome Lovejoy (David Warner), um Jack já morto de hipotermia a sumir nas profundezas do mar e a Rose velhinha a atirar o famigerado diamante, que esteve sempre na sua posse, ao mar.


Lembro-me também de ter criado empatia com duas outras personagens: Molly Brown (Kathy Bates) uma divertida e desbocada nova rica que é apenas tolerada pelos outros passageiros da primeira classe pelo seu dinheiro, e Fabrizio Rossi (Danny Nucci), o comparsa italiano de Jack, de quem tive imensa pena de não ter sobrevivido. Não, não chorei a ver o filme, mas vontade não me faltou. E a julgar pela quantidade de fungos e assoares que ouvia e olhos vermelhos que vi à saída, devo ter sido dos poucos que não choraram. Aliás, foi  o primeiro filme que muitos homens de barba rija não tiveram vergonha de admitir que os fez chorar!

Com um então nunca visto orçamento de 200 milhões de dólares, era o filme mais caro até então e ao longo de todo o processo, pairou sempre a sombra de um possível desastre de proporções titâncas. Titânico foi sim o sucesso, tornando-se o maior êxito de bilheteira até então, apenas suplantado em 2009 pelo seguinte opus de James Cameron, "Avatar". Leonardo Di Caprio e Kate Winslet  foram elevados a superestrelas e voltariam a formar par romântico em "Revolutionary Road" em 2009. O filme igualou o recorde de Óscares (onze) e nomeações (catorze, onde faltou estranhamente a de melhor actor para DiCaprio). E a banda sonora de James Horner também foi campeã de vendas, apesar de ser quase instrumental, excepção feita ao célebre tema "My Heart Will Go On" interpretado por Celine Dion. Apesar de já recheada de hits, tornou-se o maior sucesso da canadiana.

Tenho receio de me desapontar se voltar a ver o "Titanic", afinal o mundo mudou tanto desde então e já há muito que a minha inocência de então se diluiu. Mas seja como for, nada me tirará as memórias da magia de que foi ter ido vê-lo ao cinema em princípios de 1998, um dos anos mais marcantes da minha vida, e como o filme evoca um período feliz da minha existência.







Paulo Neto é um escritor que gosta de colaborar com diversos blogs que o ajudem a recordar outros tempos saudosos. Agradeço a sua colaboração com o meu.




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