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O Bem Amado é uma das melhores novelas de sempre, foi a primeira Telenovela a cores da Rede Globo e chegou a ter uma "sequela", numa série que manteve o mesmo nível de qualidade da novela.

O Bem Amado foi uma telenovela de Dias Gomes, emitida pela Rede Globo entre Janeiro e Outubro de 1973, e que a RTP 1 transmitiu em horário nobre. No Brasil foi a primeira novela a cores e a primeira a ser emitida no horário das 22 horas, já por Portugal (como ainda eram raros os televisores a cores), muita gente viu a mesma em preto e branco.

A novela era baseada numa peça de teatro do mesmo autor, e teve uma interpretação magistral de Paulo Gracindo que fez na perfeição o papel de Odorico Paraguaçu, um político corrupto e cheio de artimanhas que é também dono de Fazendas e candidato a perfeito de Sucupira. Odorico era demagogo e prometia tudo e mais alguma coisa para garantir a sua eleição, o que fazia com que a maioria dos eleitores o adorasse e em especial as mulheres da vila.

Paulo Gracindo conquistou tudo e todos (pude confirmar isso depois numa repetição no GNT), com um carisma acima da média sendo um verdadeiro político, num discurso cheio de palavras pomposas e uma retórica vazia onde o actor inventava muito do texto que era proferido pelo político. O jeito como Odorico abreviava conversas e raciocínios – “Botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes” –, os eufemismos que usava – “os cachacistas juramentados”, “a imprensa escrita, falada e televisada”, “as donzelas praticantes” –, e os peculiares advérbios que despejava em cada frase – “Deverasmente”, “Pra frentemente!”, “Pra trasmente!” – caíram no gosto popular e entraram para o folclore nacional.



Odorico consegue ser eleito construindo um cemitério (algo que não existia em Sucupira), mas começa a ser alvo de chacota quando ninguém morre para estrear o cemitério e a oposição começa a apoquentar o seu domínio sobre a população. Mesmo assim ele continua com o apoio cego do seu secretário Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), um gago tímido e com o hábito de coleccionar borboletas, e das irmãs Cajazeiras, três solteironas sexualmente reprimidas que eram beatas mas iam nas cantigas do Odorico e cada uma tinha uma relação às escondidas com ele aliciadas pela promessa de casamento.

O que me lembro mais da novela aquando da sua primeira transmissão, é da personagem Zeca Diabo, interpretado por Lima Duarte, um pistoleiro redimido que volta à sua terra Natal aliciado por Odorico de modo a matar alguém para inaugurar o cemitério. A comédia maior da novela é que todas as tentativas para que alguém morresse saíam sempre frustradas, quer antes da vinda de Zeca Diabo, quer mesmo depois da presença dele na vila.

Começam então a acontecer escândalos que enfraquecem o poder do Odorico sobre a população, como aquele em que ele coloca microfones no confessionário da Igreja para descobrir os segredos dos seus inimigos, mas que acaba com Dirceu Borboleta a descobrir que afinal o filho da irmã Cajazeira com que ia casar era do seu patrão odorico. Dirceu enlouquece e estrangula a mulher, o que leva ao perfeito a perder o apoio das restantes irmãs que levam inclusive o corpo da irmã para ser enterrada noutro local, impedindo assim a inauguração do cemitério.


Odorico decide então contratar Zeca Diabo para que este finja atirar nele e assim parecer que há um atentado à sua vida, e capitalizar isso nas próximas eleições. O problema surge quando Zeca Diabo, que tinha aprendido a ler com uma das irmãs, descobre que tinha sido Odorico o mentor da sua prisão injusta anos atrás e leva este a atirar nele e assim fazer com que finalmente o cemitério de Sucupira seja inaugurado, com o corpo da pessoa que o inaugurou e o mandou construir.

Não sei se foi a novela ou a série que  foi transmitida pela RTP em 1984, mas não prestava muita atenção nela e somente em algumas das personagens, como a do Zeca Diabo a qual eu gostava de imitar correndo no recreio da primária e fazendo parvoíces gritando que era a personagem. Anos mais tarde revi a novela com atenção e percebi o quão boa ela era, mas gostei ainda mais da série que foi feita nos anos 80 e teve durante cinco anos no ar, sendo transmitida cá pelo GNT com bastante sucesso.

A novela foi a primeira a ser exportada pela Rede Globo, o que abriu as portas a algo que começou a ser prática comum na estação, e Portugal foi um desses países que transmitiu depois a Novela.

A novela tinha várias personagens carismáticas, e uma delas era a do Pescador Zelão das asas (Milton Gonçalves), um homem cheio de fé que desde que tinha escapado com vida de um temporal havia jurado um dia voar até às alturas para provar a sua fé.


Zelão tentava cumprir a sua promessa a Bom Jesus dos Navegantes construindo diversas asas de pano, madeira e outros materiais, mas falhando sempre neste intento. Na cena final, Zelão sobe no alto da torre da igreja. A imagem congela e a voz de um narrador diz: “Aqui, a nossa história pára, pois tudo o que sabemos daí em diante é de ouvir contar. Não é que a gente não acredite, pois caso um dia você vá a Sucupira vai ver que lá ninguém duvida.” A cena volta a ganhar movimento. Zelão faz o sinal da cruz e, diante dos rostos pasmos dos moradores de Sucupira, se atira do alto da igreja. Todos murmuram entre si que ele está voando, e uma tomada do alto mostra o ponto de vista de Zelão planando sobre a praça. A voz do narrador, então, retorna: “E Zelão vôou. Se você duvida, é um homem sem fé” .

Uma novela divertida, interessante e bem escrita com um pouco de crítica política e à ditadura militar que só um autor como Dias Gomes conseguia fazer. A sequela foi bem mais leve nisso mas bem divertida e com a ressurreição do Perfeito que voltou assim para o poder e para as irmãs beatas.









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