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Sempre foi complicado acordar cedo para ir para a escola, e as Sextas-Feiras de manhã de 1994 eram extremamente complicadas por causa de um programa que a SIC dava ao final da noite de Quinta e que acabava pela madrugada de sexta, o programa A Noite da Má Língua.

Este era um programa mordaz e ácido, com críticas fortes e com pessoal sem papas na língua a criticar membros do governo ou figuras da sociedade Portuguesa que beneficiava em muito do final do governo Cavaquista e do começo da legislatura de António Guterres. O País fervilhava com acontecimentos como o Buzinão na Ponte ou a pancada na Marinha Grande, e um programa destes apelava aos adolescentes que começavam a ter consciência social e a todos que tivessem bom humor e que gostassem de ver algo que expunha o que ia de mal no nosso País.

O programa era apresentado por Júlia Pinheiro, que cumpria bem o seu papel de apresentadora, dando temas para a conversa e conseguindo moderar/refrear os seus colegas de modo a que o programa tivesse um princípio, meio e fim em condições. Volta e meia dava a sua tirada e o seu estilo assertivo e seguro de si ajudava quando o programa tinha direito a convidados ou quando ela ia entregar os prémios que o programa atribuía.

No começo o cenário era muito simples e o que sobressaía eram as cadeiras onde a apresentadora e os quatro comentadores se sentavam que tinham umas cores berrantes, eram enormes e estavam cheias de picos. Completamente adequado ao programa onde todos eram picados e onde para além dos comentários ácidos dos membros do programa, tínhamos um apanhado de imagens do que tinha acontecido durante a semana no segmento SIC Transit Gloria Mundi do Victor Moura Pinto, que eram sempre acompanhadas de música que gozava com as situações que eram retratadas e com comentários bem interessantes.

No começo existiu muita rotação de comentadores, o poeta Alberto Pimenta e a rainha da ironia que era Graça Lobo estiveram nas cadeiras que rapidamente ficaram com 4 homens durante muito tempo.

Miguel Esteves Cardoso, Luís Coimbra, Manuel Serrão e Rui Zink eram então os comentadores de serviço sob a moderação da Júlia que tentava assim refrear os comentários deste quarteto que não tinha receio de dizer o que pensava, e das discussões que existiam por vezes devido a serem quatro pessoas bastante diferentes.

MEC era um intelectual que tinha estudado em Inglaterra e que defendia a Monarquia enquanto escrevia crónicas arrasadoras no Independente, Manuel Serrão era o homem do Norte que gosta de falar alto enquanto falava de futebol e dono de uma risada que rapidamente se tornou imagem de marca do programa, Luís Coimbra era o homem sóbrio e sério, que tinha tiradas certeiras e que defendia o seu Sporting assim que Serrão entrava pelos caminhos da bola e por fim Rui Zink era o homem da Esquerda mas dono de um humor carregado de ironia e por vezes bem corrosivo.

Um dos melhores programas foi quando o José Cid teve a coragem de aparecer em pleno programa para receber o seu prémio, e quase começou à porrada quer com Miguel Esteves Cardoso quer com Manuel Serrão. De resto os acontecimentos marcantes do fim do governo de Cavaco e os membros castiços do governo de Guterres, davam excelentes crónicas de Victor Moura Pinto em especial quando mostravam o António Vitorino a andar tal e qual como um Pinguim. Herman José fez uma imitação perfeita deste programa nos seus programas no Canal 1 e foi assim convidado a aparecer no programa o que fez com todo o gosto.

O programa esteve no ar de 1994 a 1997 e a dada altura viu a saída de Luís Coimbra ser colmatada com a entrada de Rita Blanco que deu outro fôlego ao programa e animou as noites com as picardias constantes com o Manuel Serrão. Sendo sincero, não fui muito fã da entrada dela, e quando o programa virou uma mesa redonda comecei a deixar de o ver com tanto interesse. Mesmo assim marcou uma época, e era rara a Sexta-Feira onde o assunto na escola não era sobre a Noite da Má Língua.















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