... do Recruta Zero - Ainda sou do tempo

sábado, 4 de agosto de 2012

... do Recruta Zero



Ainda sou do tempo em que ao entrar numa papelaria podia encontrar um sem número de revistas de Banda Desenhada, que iam desde os Super-Heróis da Marvel e da DC, às revistas da Disney passando por um sem número de personagens de onde se destacava um tropa preguiçoso, o Recruta Zero. Sempre que tinha direito ao troco do Pão, este era um dos meus alvos predilectos quer fosse a revista normal quer fosse os seus Almanaques ou Super Almanaques da editora Brasileira RGE (Rio Gráfica Editora).


Recruta Zero (Beetle Bailey) foi criado na década de 50, mais precisamente a 4 de Setembro de 1950, por Mort Walker e faz parte da elite de tiras de jornais que ainda hoje é produzida pelo seu criador original. Na tira original podíamos ver as aventuras de uma fraternidade de estudantes, mas devido ao pouco interesse do público, Mort fez com que a personagem se alistasse no exército a 13 de Março de 1951. Aí conseguiu um universo maior com o qual podia trabalhar, baseando-se um pouco na sua própria experiência militar de quando esteve num quartel.

A tira beneficiou do conflito militar que decorria na Coreia, começando a ser um sucesso absoluto quer entre os militares (em especial os de baixa patente), quer no público em geral que se divertia com aquele soldado calão e indisciplinado que levava à loucura o seu Sargento de instrução. Apesar do bom humor da tira, começaram a aparecer alguns problemas com as altas patentes militares que viam nela um mau exemplo e uma afronta a toda a operação militar e levaram o autor a encontrar ainda mais piadas utilizando a tacanhez de alguns superiores militares mas tendo o cuidado de manter aquilo tudo no universo imaginário do Quartel Swampy.

Para além das revistas, um dia apercebi-me que a RTP também dava os Desenhos Animados desta personagem. O problema é que não era algo certo, por norma eram daqueles típicos tapa buracos entre programas quando já não havia mais anúncios por transmitir.

A produção estava a cargo da King Features Syndicate, sendo transmitidos pela primeira vez em 1963 e ao todo foram feitos 50 episódios que apesar de não terem a mesma graça que as revistas, divertiam-me bastante e a dobragem Brasileira ajudava à coisa dando ao programa uma dose de loucura que se assemelhava ao espírito das tiras.

Felizmente que todas as revistas da RGE chegavam a Portugal, a década de 80 era fértil na importação das revistas e essa editora não era excepção. Os meus preferidos eram os Superalmanaques, eles alternavam tiras clássicas, ou não tão clássicas, com histórias soltas e em algumas ocasiões uma linha de histórias em sequência que dava nome ao Superalmanaque, como no caso de um dedicado ao Supersargento ou outro dedicado a todos os membros do Quartel se transformarem em monstros do Halloween.

Uma das minhas histórias preferidas é aquela onde todo o Quartel vira Asa Branca e mostra uma paródia à novela de sucesso, Roque Santeiro. Assim como nas revistas da Disney, também estas tinham histórias feitas por artistas Brasileiros que tinham por vezes mais qualidade que algumas originais. Ver o Tenente Escovinha como Mocinha ou o Cuca como Viúva Porcina foi impagável, Roque Swampeiro foi mesmo um dos melhores momentos desta revista.

O número de personagens da tira foi crescendo ao longo dos anos, e dando em algumas ocasiões destaque à abertura do próprio exército a todos os sectores da sociedade, começámos a ver elementos Negros, Mulheres, Coreanos e tantos outros que foram tendo o seu lugar neste peculiar Quartel. Vamos conhecer um pouco melhor os integrantes:



Zero ("Beetle Bailey"): Recruta preguiçoso e indolente, está sempre à procura de formas de fugir do trabalho. Está sempre com boné ou capacete cobrindo os olhos e em constante conflito com o Tainha. Uma das minhas tiras favoritas, e que o representa na perfeição, mostra uma discussão entre ele e o Sargento Tainha que o acusa de ser preguiçoso e acaba com ele deitado encostado a uma árvore mesmo nas barbas do sargento e continuando a discussão.

Sargento Tainha (Sgt. Orville Snorkel): Um brutamontes sem jeito com as mulheres, guloso e solitário, que age sempre de uma forma hostil com os seus soldados mas adora o seu cão Oto. Adorava como o retratavam com as mulheres, ficando completamente gagá.

Oto (Otto): É o cão do Sargento Tainha (Sgt. Orville Snorkel). Originalmente, Mort Walker retratou o cãozinho como um cachorro comum, para depois desenhá-lo com o mesmo uniforme de seu dono, além de ter a mesma cara.

Platão (Plato): É o intelectual da trupe. Sempre com citações de livros e fala sempre como se estivesse apresentando uma tese de doutorado.

Dentinho (Zero): O oposto do Platão. Dentinho é um personagem, digamos, limitado intelectualmente, e seu nome é uma ironia a dois de seus dentes crescidos. Adorava quando o Tainha o ordenava para algum trabalho já que a asneira era certa e garantida.

Cosme (Cosmo): Faz um comércio informal em seu "cantinho do Cosme", onde vende de tudo; este personagem foi quase esquecido nos anos 80. Era conhecido pelas suas jogatanas onde nunca perdia.

Roque (Rocky): O típico revoltado. Administra o jornal clandestino do quartel, e se mobiliza por qualquer causa atual.

Quindim (Killer): Faz as vezes de mulherengo e galanteador dentro do quartel Swampy. Nem sempre tem sucesso (em geral, uma em cada cinqüenta de suas cantadas dá certo), é o principal amigo de Zero.

Cuca (Cookie): É o cozinheiro do quartel Swampy, reputado por sua incrível capacidade de tirar o apetite de todos com as suas "iguarias". Inicialmente retratado com um quepe de caserna, ganhou um chapéu de mestre-cuca, para facilitar a identificação. Trabalha sempre com um cigarro na boca (em 1989, o personagem aboliu de vez o hábito de fumar).

Tenente Escovinha (Lieutenant Fuzz): trata-se de um oficial caprichoso e imaturo, sempre reclamando que nunca é promovido. Eterno puxa-saco do General Dureza, constantemente tem chiliques infantis e vive implicando com o jeito grosseirão do Sgto. Tainha. As minhas discussões preferidas envolviam o barulho que a cadeira do Taínha fazia.

Tenente Mironga (Lieutenant Flap): Embora não apareça com freqüência nas tiras, leva a honra de ser o primeiro personagem negro a ser retratado em quadrinhos norte-americanos, em 1970, e a sua marca registrada é o eterno cabelo black power.

Capitão Durindana (Captain Scabbard): É um sujeito tímido e de raros melindres, sempre disposto a ouvir as reclamações dos subordinados, em especial do Zero e de outros soldados rasos.

General Dureza (General Amos Halftrack): O típico mau líder. Pensa mais no golfe que na administração do quartel. Como se não bastasse, tem problemas de alcoolismo (toma muitos Martinis) e obedece cegamente à sua mulher, Martha. Vive com esperenças de receber uma carta do Pentágono, que sequer lembra-se da existência deste quartel.

Martha (Martha Halftrack): A esposa do General Dureza que o trata abaixo de cão e o mantém na linha com o tolo da massa.

Major Batalha ou Peroba (Major Greenbrass): companheiro inseparável do General Dureza no golfe e no Clube dos Oficiais, onde ambos batem ponto após o expediente para beber.



Srta. (ou Dona) Tetê (Miss Buxley): A típica secretária “boa”, sempre representada com um vestido preto. É o objecto de desejo de soldados e oficiais dentro do quartel, mas também é a típica "loura burra", bem menos competente que sua colega Blips.

Soldado Blips (Miss Blips): É a competente secretária militar do General Dureza, sempre desprezada por não ter os atributos físicos de Srta. Tetê.

Júlio (Julius): Chofer gordinho do General Dureza, conhecido como o "queridinho da mamãe".

Capelão (Chaplain Staneglass): Sempre com um bom conselho aos militares.

Cabo Ky (Corporal Yo): Introduzido em 1990, é o primeiro oriental desta tirinha.

Dr. Esculápio: Médico do quartel, meio amalucado.

Dr. Bonkus: O psicólogo do quartel.

Sargento Louise Lorota (Sgt. Louise Lugg): introduzida na tirinha em 1986, ela quer ser a namorada do Sargento Tainha.

Bella: a gata angorá de estimação da Louise.

Bunny: a namorada do Zero, raramente vista na tirinha.



A revista era já um clássico das nossas papelarias e continuou a vir para cá mesmo quando a RGE virou Globo ou quando a Editora Abril pegou na personagem. Infelizmente deixou de ser comum haver este intercâmbio entre os dois Países e deixámos de ter estas revistas à venda apesar de ainda continuar a ser editado no Brasil. Como em todas as tiras, o humor tem os seus altos e baixos, mas no geral continua a ser uma tira bastante engraçada mesmo que repita situações até ao extremo como o Sargento Tainha preso a um ramo de uma árvore com medo de cair.